sábado, 31 de maio de 2014

Ir Sozinha



Dane-se a convenção
que diz: a solidão é um fel amargo demais para sorver sozinho
dane-se
Dane-se o amor dos olhos
Dane-se o amor dos fracos, que precisam do outro para poder se ser
Dane-se o amor intenso e mortal
Dane-se o amor platônico, que guarda o bem do ausente e segue meio demente
dane-se
Dane-se , eu quero ir
apenas ir
nem que seja assim
eu
comigo
eu

mas sem essa porra
de diminutivo
essa solidão pequena do sozinho
no meu só
há uma única nota
um Sol em tom maior


                                                                                                                              Fassura

Dedico este poema torto  àqueles descabidos  em si, àqueles que são gigantes contidos num pequeno e frágil vaso de barro.

sábado, 26 de abril de 2014

Vou me embora para Asgard

Vou-me embora para Asgard
lá sou nora do rei
Ando do lado dos deuses, sou quase lei
Vou-me embora para Asgard
lá bebo e como com fartura
e não me preocupo com as faturas do mês
Vou-me embora para Asgard
lá sou cunhada da irreverência
e ando contra a ciência
Vou-me embora para Asgard
lá o tempo não arde
e se estiver cansada do sol
sou mulher do deus do trovão
que sempre me faz chover




Fassura

sexta-feira, 18 de abril de 2014

O homem criou uma semente de aço
Não queria pé que desse flor
Queria um pé de balaço
Arou o minério em meio ao vapor
Regou com dos outros a dor
Fertilizou com um dolo eventual
Do homicídio perpétuo
Emprestou também o seu calor
Deitando sua consciência
E um calor vermelho
Em sua plantação
E com o tempo certo
Colheu seu morto fruto
Vendeu por um bom preço

 E disse: apertar o gatilho, eu não faço!

Fassura

sexta-feira, 28 de março de 2014

Encontro abstrato


Procurou no outro o país Felicidade
Levou nas malas pequenos grandes problemas.
A mala foi extraviada para o país Ilusão.
Sentiu-se aliviado na cidade Prazeres,
Tão aliviado que se esqueceu de si,
Pensou-se infindável.
Mas, num belo dia andando pelo tempo,
Descobriu o bairro Soledade.
Desnorteado entre a Rua Desespero e Desilusão,
Dobrou a esquina da Saudade.
Perdido
Entrou numa loja de coragem.
Perguntou à dona da loja, dona Esperança, como faria para voltar ou apenas ir-se daquele lugar.
Querido há uma estrada que corta esse bairro. Ela pode te levar à Rua Enfrente.
Não há volta?
Não, nesses casos o melhor é seguir, para não se desviar do rumo, ou cair na tentação de estagnar na Rua Memória e viver hóspede da Lembrança.
Se só tem esse jeito, me diga então o nome da estrada.

FÉ.



Fassura

sexta-feira, 7 de março de 2014

COMBOIO


Sai do aconchego do ventre para chorar e sorrir o mundo
E sentir o pulsar da vida nos outros
Nas coisas que bombeiam história
Que transpiram
Escarram
Amam
Deslumbram
Mentem
Acolhem
Repugnam
Dignificam
Abraçam
Gracejam
Todas essas coisas boas e ruins
Que chovem tão humanas
Vivendo Natureza e Graça
Num pequeno corpo universo



Thamires Fassura

quarta-feira, 18 de setembro de 2013

Tinha um andar arrastado,
O mundo nas costas,
Os olhos no chão,
Levava a vida sempre no não.
De cabeça baixa sondava a razão,
Mas desiludido deixava a questão.
Queria um ponto sem nó,
Um canto sem dó,
para melodiar só sua canção.
Queria, mesmo, era a vastidão,
Mas andava pequeno em si:
com medo de  desatrelar da multidão.
Pensava baixinho: se o amor é a quilha do coração, 
a quilha da liberdade deve ser a revolução.



Thamires Fassura



quinta-feira, 22 de agosto de 2013

O dia corre com a máquina do tempo
Os homens maquinam sem vento
aonde enxertar em si o que não se é.
Uma guisa de homem e robô,
a era da virtualidade emocional.
Não se é em si.
Só 
aparato do mundo
uma engrenagem enferrujada
de tanto prantear a ambição desconcertada
querendo o infindo
de uma missão mortal:
alcançar o céu.



Thamires Fassura