quinta-feira, 27 de dezembro de 2012


Contado em meses,
em um clico de quatro estações.
Repetindo os mesmos prazeres,
e a falta de atenção.
Brincando inocente, 
sem sequer saber, 
que aos doze meses já é indesejado de todos.
Sorri numa tarde de verão,
seu coração consegue ser todo sol
na despedida.
Bem sabe que nasceu para partida.
Alguns, ao se despedirem dele, 
têm o coração como um pêndulo:
indo entre o desejo de vê-lo partir
e voltando nostálgico com saudade do que vai deixar.
É sempre fim de algo novo, 
um ano é todo novo, 
mal se lança a andar,
já tem de deitar o corpo no jazigo,
e estranhamente morrer de velhice.
Mas se despede alegre, pois toca a mão
do seu irmão ingênuo que vem chegando,
que vem sorridente e esperançoso como todo começo, 
para confortar na hora derradeira,
e recriar de forma diversa
a quilha da vida que é o coração.





Fassura

sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

Mulher com cabelo amarelo





Meu cabelo amarelo é sol poente
num braço de rio frio
que sem o toque teu esmorece
A neve brinca em meu colo
apagando o coração em chama
Terra é meu ventre
desassossegado sem chuva
E meu rosto, amado, meu rosto
é astro fulgente
fingindo dormir enquanto é contemplado à distância
na vaga tormenta de ser lua.


Fassura


O vento ficou doente... e os seres humanos... encalorados!
Esse tempo anda muito descuidado, só sabe viver de extremos
Derrama dos céus fortes lágrimas tempestuosas,
E quando sopra congela até coração...
E quando sol, só sabe explosão.
 Faz desfalecer a esperança, 
É miragem a razão... corpo assim se faz sedento
Evaporando na densidade do ar, 
Sem caber em qualquer espaço de tempo
Em meio ao caos e tormento do tempo doido de extremos, 
Cabe-nos tão pouco admirar... o manto negro pontilhado, 
Céu estrelado, maravilha na noite de pouco vento...
 Nessa vida que só pode ser desfrutar, 
Mesmo em meio à polos distintos, 
O que se persegue é mais que destino;
É mais que breve caminho; 
É o que há de mais indizível.
 É amar









Luiz Fernando Cabal;  Fassura

sábado, 1 de dezembro de 2012

Entardecer



Quando meus olhos entardecerem
E pousarem sobre as lembranças
Te recordarei como lareira
Com brasas de esperança

Sonharei teus olhos ardilosos
Tua boca maciça
E teu corpo de barro

Esbarrarei nestas horas sem tempo
Onde o infinito estaca

Quando meus olhos entardecerem
Descobrirei teu corpo
Revelarei tuas sombras
Lançarei mão do futuro
Para viver o revés do agora

Fassura


Canto de um Andarilho


Onde está o canto
Agora que vivo no canto
Fugiu do tanto
De tanto que o mundo fingiu
Meu manto agora é ponto
Sem coroa ou cetro
Vivo agora sem teto
Uso farrapos de pano
Até em meu recôndito
Sem conto de trono
Meu tempo já não tem ano
Só teto de céu
Dia e noite
Um conto de fel
Andarilho sem trilho
É isso que sou
Sou nada
Porque amei o nada
Vivi o nada
Falei o nada
E nada me viu
Por onde andei?
Acho que nem sei
Vivo sem norte
Mas tenho lei
A rua é minha casa
Meu canto sem abrigo
Meu céu sem asa
Na rua escuto o estalido
Meio sem sentido
Sempre distante do canto
Onde está o canto
Agora que vivo no canto
Meu canto se esvaiu
Agora tenho voz embargada
Meu tom já partiu
Só me restaram horas vagas
Sem azul anil
Meu tempo tem paradeiro disperso
Sempre incerto
E o canto, ah o canto
O canto saiu
Deixou-me com saudade no peito
Agora choro sem jeito
E só me resta um canto
Onde recoste minha cabeça
E prove o algoz pranto
Um vazio de mim



Fassura

Faces de mim nos saltos do tempo






Vivi das texturas: das paredes, da terra, do colchão, do chão
Acariciando os relevos ásperos da história
Pisando e revolvendo a terra convulsa
Dormindo num leito macio
Onde tudo morre e renasce
Como a luz escondida nos belos dias cinza
Vivi corrente de ar de mundo
Mudo mudado
Desnudo
Vivi água cálida de praias perdidas
Que trabalham ninando pequenos barquinhos
Vivi vento, soprando, contralto
Vivi grave desatino de tempestades em mim mesmo
Vivi vivendo sorrindo sendo
Vivi vendo, flutuando
Vivi rindo chorando
Vivi caminhando em pensamentos fora do tempo
De ontem
De hoje
De amanhã
Vivi em castelos
Em casebres
Vivi do céu, pairando sobre tetos crepusculares
Vivi nos ares
Vivi na terra, nas estradas da vida trilhada por emoções
Vivi canções
Vivi em meio à turba gente
Vivi meio indigente
Vivi as faces de mim nos saltos do tempo


Fassura

sábado, 24 de novembro de 2012

Anônimos, um brinde!!!

Meus escritores são meninos e meninas, 
que brincam de poema, 
que têm gosto pelas letras não gastas, 
e pelas refeitas, por palavras perdidas, 
por sonhos improvisados numa linha. 
Eles, estes meus amigos, 
são poesia na forma de nuvem, 
na forma de rosa, e às vezes, na de espinho. 
Mas são generosos!! Generosos... 
presenteiam com honrarias, especiarias, 
cuja essência vem da alma. 
Brindam com palavras, 
com discursos que estão no porvir de verbos não conjugados, 
na espera do desassossego. 
Andam com asas... 
Ah estes meus pássaros,
que cantam até quando mudos... 
que espelham...  que espalham pegadas pelo céu...
que carregam o infinito no pedaço branco de papel.


Fassura

sexta-feira, 23 de novembro de 2012

Anônimo

Era rosto sem rosto
coração sem forma 
tempo ainda não nascido


Era um traço no acaso
Beleza invisível
Sem cor e sem brilho

Era um grito de verdade
Na imensidão do infinito
Coração de vidro

Uma lágrima vaporosa
Luz negra, radiosa
Um formato vão, no vazio


Era vento enclausurado 

uma estação no anonimato
Um olhar caído ...


Autoria: Fassura; Roselane Calhelha; Luiz Fernando Cabal; Bruno Serdera e Marcella Cobian

terça-feira, 20 de novembro de 2012

Espaço em branco




Tudo pra mudar
                       todo mundo
tudo mudo
                  muda tudo
                                   muda todo
              toda muda
todo modo
                   molda tudo
                                       toda moda
                   medo mudo
                    todo mundo
                    muda tudo

muda moda
molda mundo


Fassura

terça-feira, 13 de novembro de 2012

Almirante vermelho




Quisera eu ser Borboleta
Almirante vermelho
Quando o frio chegasse
Voaria até você
Largaria as divisas
Por quilômetros voaria
Voaria à noite
Buscaria os prados
Recolheria o néctar de teus lábios
Esconder-me-ia entre as flores
Faria floreios
Tingiria de vermelho nosso amor
Deixaria a cor soturna para trás
 Atrás das nuvens
Na aquarela azul viveria
Viveria no gerúndio
Amando você

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

Ondulante


Dormir e dormir
e ir pelo sono.
Em caravelas míticas partir,
ir antes do sonho,
desbravando o mar
com a quilha de meu coração.
E por fim recriar.
ar
ah
ar
e dormir um sono sereno,
tranquilo como as vagas ondas ,
que se debruçam sobre o leito
do oceano e nunca dormem.

sábado, 3 de novembro de 2012

Vasto canto


Sempre fora assim: uma versão à meio caminho de mim. Logo eu, que tanto desejava achar-me. Logo eu, que me supunha inteira. Pergunto-me todos os dias onde me deixei perdida.
Mas à meio caminho da desesperança, prefiro ficar aqui. Aqui, aqui sim, neste canto. Escondendo-me do porvir. Preso às memórias reinventadas, que ressurgirão num espelho enganador, com um reflexo, que só pode ser outro e não eu.
Dia desses resolvi sair. Saí assim, por sair, sabe, sem grandes motivos? Para quê um motivo? Basta-me a vontade de ir. Não sei ao certo que pé apontou-me a rua. Ah, para quê saber? Faz diferença que pé me iniciou o caminho estando eu já nele? Estando. Está aí, esse gerúndio, pairando sobre mim. Essa inevitável forma de alongar o que não se quer perder. O gerúndio equivale à espera, ou à esperança, aquele bichinho verde que se camufla de folha. Bichinho engana/dor. Agora deixando o verde e voltando à rua. Eu desesperei  _ verbinho desavergonhado esse, que sempre me acompanha _  vi um mundo ao contrário do canto: vasto e mudo de tantas sinfonias. Era um corre-corre  em desatino, uma lucidez insana, que  só cabia num quadro de Picasso. A forma estava lá toda retorcida, pedaços mal encaixados, brincando de geometria.
 O sufoco fez-me querer a volta, o canto apertado das coisas não partidas, no qual só minha “inlucidez “ cabia, e cabia de tal forma, que me era normal. Bonita _ eu diria. Eu parecia um retrato impressionista, singelo, com um movimento enquadrado. Uma alucinação bonita. Contudo o mundo me vendo, não me compreendia. Rotulavam-me à gosto de sua geometria, questionando as torrentes de pinceladas, que me faziam tão eu, tão nada, tão tudo.  Por fim voltei para o canto. Meu canto sem partida. Véspera do meu desassossego, em que aprecio estar perdida.

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

A minha avó

Ela segurou minha mão como se fosse uma criança. A mão dela tão desgastada pelo tempo. Tão mais vivida que a minha. Essa mão que carrega a textura dos tempos, das gerações que sustentou. Eu... eu a segurei como uma mãe faria.

Sem trégua

Ela tinha saído com calor, 
na volta começou a sentir um frio. 
Um friozinho daqueles que vem sozinho. 
Abriu o livro e começou a ler. 
E foi pega de surpresa, 
já estava de mãos dadas com a tristeza. 
A indesejada de todos estava na página,
à espreita, dando corda a esperança,
para depois desalentar.
Matou o dia
matou a trégua
matou o sonho
matou
e a leitora pôs-se a chorar

Fassura

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

Ver



Vai ser assim, Impressionista,
impressionante.
Os rostos em todos os quadros.
Os quadros em todos olhos.
As telas girando o mundo,
O mundo quieto na tela.
Eu impressionada
com o arquiteto dos meus devaneios,
Olhando pra mim.
Só as telas me falando.

Fassura

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

Cisma

Meu coração anda cismado
procura novos encantos para se queixar
E torturas renovadas para se prender
Bate um ritmo desafinado

Está tentando enlouquecer

Quando se exaspera procura a solidão
Que só se tem em companhia
Prepara tão gentilmente a própria guilhotina

Quer decapitar a única que traz a salvação

Quer extirpar a Razão
Construir um reino regado de brioches de ilusão

Cismando no desengano de uma amorosa fração

Para renegar a verdade, enganar-se numa nova aflição
Para enfim se render à paixão



Fassura


sexta-feira, 19 de outubro de 2012

.....................ar






Ela foi passear. As janelas do carro abertas, deixando ventar
O cabelo bagunçando, bagunçado tentando dançar.
O tempo a respirá-la .
O som assobiante, sibilante
a embalar.
De rodopios zonzas as pálpebras
quiseram descansar.
Os olhos semicerrando a paisagem
E os cabelos chicoteando o ar.
Uma valsa tempestuosa cheia de ondular.
Ondulando tanto que tudo turvo quis tornar.
Os olhos ardendo do vento, do tempo
querendo lacrimejar.


Fassura

quinta-feira, 18 de outubro de 2012

Coração do meu coração



A amizade me botou pra chorar.
Essa amizade que não quero esquecer,
que não quero perder.
Ela que se faz tão junto, que precede o estar.
Tão minha , tão eu.
Ah, não quero a prantear.
Ela que nasce do inesperado
E no meio do tempo
já é surpresa  de infância
De tempos obscuros aos meus olhos.
Ela que fora  minha mão.
Que me susteve os pés.
Ela que versificou a minha vida
e  rimas tão nobres acrescentou a meu coração .
Ela e dela, que são as cores fortuitas desses momentos que não vão.
Ah, esses momentos que serão reconstruídos, reinventados,
redescobertos à gosto da emoção.
Essa minha amizade é coração do meu coração.



Fassura

quarta-feira, 17 de outubro de 2012


Adeus, adeus! Disse-me apenas para me reter a vida
E arremessá-la nas cinzas das horas.
Mas entre o adeus e a partida instalou-se em meu coração
Uma chama, que me acendeu o desejo e a esperança.
Suas mãos a me segurar, fixando o tempo que nos restava
Seus olhos a enganar minha futura solidão
Seus olhos bebendo meus sonhos
Sua boca fortuita a me roubar a respiração
E depois: adeus!
As mãos ainda grudadas sem um limite de pele
Adeus, adeus! Sem querer despedir-se de mim
Adeus, adeus! Amando-me mais
Adeus enfim, para me matar a saudade de nós
Adeus, adeus!  A rosa de nossas horas cravou-me
Um espinho no peito, para me lembrar no sangue
o arrebol das horas perdidas.
Adeus!


Fassura

terça-feira, 16 de outubro de 2012

Negado pelos árcades


Acaso sou pastora de antigos pastos?
Acaso meu rosto não se decide nos traços,
Sou Marília ora de cabelos loiros ora negros?
Acaso tenho olhos  oscilantes entre o azul e o negro?
Acaso meus modos são rudimentares?
Acaso sou campestre e cismo em refletir a calmaria do rio,
Ou vivo em porfia dentro de mim, de tal modo que não sei que eu sustentar?
Acaso toco flauta para os rebanhos acalmar?
Acaso sorrio mediante a tosca pedra imóvel
Que tenta inutilmente respirar?
Acaso choro como as tempestades,
Ou guardo um soluço morno no silêncio?
Acaso sigo os passos das árvores,
Ou minha raiz acompanha o breve tinir da minha existência, apagando a cada pegada?
Acaso me escondo atrás de um nome, cuja criação não passa de uma desculpa?
Acaso vivo sem identidade?
Ah, acaso, por acaso, sou muitos homens...
Todos em breve dispersão de si e desaguando em  mim
Da natureza também tenho hastes,
Mas não da serenidade.
Sou esse caos que nela foi negado pelos árcades.
E me faço um espasmo de tempo.
Pra viver de acasos.

Fassura

domingo, 14 de outubro de 2012

Provençal





Nossas mãos dançaram num breve cumprimento
Meu coração dríade nascendo do teu
Teu peito em fogo acalentando o meu
Entrelaçadas almas predestinadas a um só monumento

Numa língua provençal que tolos entoam
Sábios tolos, que duas formas díspares transformam em uma.
Lábios tolos, que brindam embevecidos a lua.
E sussurram o óbvio segredo que os românticos apregoam.

Nossas mãos dançaram o amor provençal
Lábios e cordas trovadorescas exalando mel
Uma junção sem igual

Troca de ares esculpindo o céu
Lembranças inventadas do porvir
Acaso de amores sem fim

Fassura

sábado, 13 de outubro de 2012

Encarnado


Cubra-me de vermelho
Manto nobre do amor
Esse escarlate de céu e inferno
Que sempre agradece a dor que recebe
Que num minuto inunda e noutro é deserto
Que se regozija em caminhar em dois extremos
Paz e desassossego
Que lateja no peito como presságio de morte
Sua chaga só é fluxo de vida
Pressentimento de ventos
Sonhos outonais com folhas caídas
Tão bom que mal há de tornar
Tão mal que sempre há um bem querer
Antes do desavisado engano se erguer
Tão antes, tão depois, tão agora
Que só o infinito enquanto dure pode assegurar o presente
A dádiva de avermelhar a vida
De prazer cobrir o corpo cansado da ida
E perpetuar nessa segunda pele
A volúpia do encarnado

Meu velho amigo


Encontrei meu velho amigo.
Lá estava ele tão adolescente de si.
Deu-me um sorriso sem o tempo perdido
Retribuí entoando um riso afável,
Agradável como as pequenas descobertas
Que impulsionam o mundo.
Ele depois passou a me contemplar,
 Saudade antes da despedida,
Não queríamos um fim.
O convidei para ceiar,
Erguemos as taças e brindamos o inevitável.
Sorvemos o tempo à gosto dos destemperos,
Pensamos no porvir,
No findável, nessa breve felicidade de encontros surpresas.
Decidimos então ser imediatos, sem antes ou depois,
Só para rirmos desses devaneios.
Meu amigo era meu espelho,
Eu brindando comigo.
Meu eu de outrora me sorrindo,
Cordialmente carinhoso,
Com o seu velho futuro.
Eu brindando meu passado novo.
Tão bom reencontrar meus olhos pueris,
Cá nesse mundo biruta
À gosto do vento.
Eu vivendo duas metades de mim,
Sem sequer a certeza de quem sou,
Mas com a infinita certeza de ser mais de um
E não menos que dois.
Misturando o verso com o reverso
Voando sem deixar de o chão tocar.

Fassura