quinta-feira, 25 de outubro de 2012

Ver



Vai ser assim, Impressionista,
impressionante.
Os rostos em todos os quadros.
Os quadros em todos olhos.
As telas girando o mundo,
O mundo quieto na tela.
Eu impressionada
com o arquiteto dos meus devaneios,
Olhando pra mim.
Só as telas me falando.

Fassura

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

Cisma

Meu coração anda cismado
procura novos encantos para se queixar
E torturas renovadas para se prender
Bate um ritmo desafinado

Está tentando enlouquecer

Quando se exaspera procura a solidão
Que só se tem em companhia
Prepara tão gentilmente a própria guilhotina

Quer decapitar a única que traz a salvação

Quer extirpar a Razão
Construir um reino regado de brioches de ilusão

Cismando no desengano de uma amorosa fração

Para renegar a verdade, enganar-se numa nova aflição
Para enfim se render à paixão



Fassura


sexta-feira, 19 de outubro de 2012

.....................ar






Ela foi passear. As janelas do carro abertas, deixando ventar
O cabelo bagunçando, bagunçado tentando dançar.
O tempo a respirá-la .
O som assobiante, sibilante
a embalar.
De rodopios zonzas as pálpebras
quiseram descansar.
Os olhos semicerrando a paisagem
E os cabelos chicoteando o ar.
Uma valsa tempestuosa cheia de ondular.
Ondulando tanto que tudo turvo quis tornar.
Os olhos ardendo do vento, do tempo
querendo lacrimejar.


Fassura

quinta-feira, 18 de outubro de 2012

Coração do meu coração



A amizade me botou pra chorar.
Essa amizade que não quero esquecer,
que não quero perder.
Ela que se faz tão junto, que precede o estar.
Tão minha , tão eu.
Ah, não quero a prantear.
Ela que nasce do inesperado
E no meio do tempo
já é surpresa  de infância
De tempos obscuros aos meus olhos.
Ela que fora  minha mão.
Que me susteve os pés.
Ela que versificou a minha vida
e  rimas tão nobres acrescentou a meu coração .
Ela e dela, que são as cores fortuitas desses momentos que não vão.
Ah, esses momentos que serão reconstruídos, reinventados,
redescobertos à gosto da emoção.
Essa minha amizade é coração do meu coração.



Fassura

quarta-feira, 17 de outubro de 2012


Adeus, adeus! Disse-me apenas para me reter a vida
E arremessá-la nas cinzas das horas.
Mas entre o adeus e a partida instalou-se em meu coração
Uma chama, que me acendeu o desejo e a esperança.
Suas mãos a me segurar, fixando o tempo que nos restava
Seus olhos a enganar minha futura solidão
Seus olhos bebendo meus sonhos
Sua boca fortuita a me roubar a respiração
E depois: adeus!
As mãos ainda grudadas sem um limite de pele
Adeus, adeus! Sem querer despedir-se de mim
Adeus, adeus! Amando-me mais
Adeus enfim, para me matar a saudade de nós
Adeus, adeus!  A rosa de nossas horas cravou-me
Um espinho no peito, para me lembrar no sangue
o arrebol das horas perdidas.
Adeus!


Fassura

terça-feira, 16 de outubro de 2012

Negado pelos árcades


Acaso sou pastora de antigos pastos?
Acaso meu rosto não se decide nos traços,
Sou Marília ora de cabelos loiros ora negros?
Acaso tenho olhos  oscilantes entre o azul e o negro?
Acaso meus modos são rudimentares?
Acaso sou campestre e cismo em refletir a calmaria do rio,
Ou vivo em porfia dentro de mim, de tal modo que não sei que eu sustentar?
Acaso toco flauta para os rebanhos acalmar?
Acaso sorrio mediante a tosca pedra imóvel
Que tenta inutilmente respirar?
Acaso choro como as tempestades,
Ou guardo um soluço morno no silêncio?
Acaso sigo os passos das árvores,
Ou minha raiz acompanha o breve tinir da minha existência, apagando a cada pegada?
Acaso me escondo atrás de um nome, cuja criação não passa de uma desculpa?
Acaso vivo sem identidade?
Ah, acaso, por acaso, sou muitos homens...
Todos em breve dispersão de si e desaguando em  mim
Da natureza também tenho hastes,
Mas não da serenidade.
Sou esse caos que nela foi negado pelos árcades.
E me faço um espasmo de tempo.
Pra viver de acasos.

Fassura

domingo, 14 de outubro de 2012

Provençal





Nossas mãos dançaram num breve cumprimento
Meu coração dríade nascendo do teu
Teu peito em fogo acalentando o meu
Entrelaçadas almas predestinadas a um só monumento

Numa língua provençal que tolos entoam
Sábios tolos, que duas formas díspares transformam em uma.
Lábios tolos, que brindam embevecidos a lua.
E sussurram o óbvio segredo que os românticos apregoam.

Nossas mãos dançaram o amor provençal
Lábios e cordas trovadorescas exalando mel
Uma junção sem igual

Troca de ares esculpindo o céu
Lembranças inventadas do porvir
Acaso de amores sem fim

Fassura

sábado, 13 de outubro de 2012

Encarnado


Cubra-me de vermelho
Manto nobre do amor
Esse escarlate de céu e inferno
Que sempre agradece a dor que recebe
Que num minuto inunda e noutro é deserto
Que se regozija em caminhar em dois extremos
Paz e desassossego
Que lateja no peito como presságio de morte
Sua chaga só é fluxo de vida
Pressentimento de ventos
Sonhos outonais com folhas caídas
Tão bom que mal há de tornar
Tão mal que sempre há um bem querer
Antes do desavisado engano se erguer
Tão antes, tão depois, tão agora
Que só o infinito enquanto dure pode assegurar o presente
A dádiva de avermelhar a vida
De prazer cobrir o corpo cansado da ida
E perpetuar nessa segunda pele
A volúpia do encarnado

Meu velho amigo


Encontrei meu velho amigo.
Lá estava ele tão adolescente de si.
Deu-me um sorriso sem o tempo perdido
Retribuí entoando um riso afável,
Agradável como as pequenas descobertas
Que impulsionam o mundo.
Ele depois passou a me contemplar,
 Saudade antes da despedida,
Não queríamos um fim.
O convidei para ceiar,
Erguemos as taças e brindamos o inevitável.
Sorvemos o tempo à gosto dos destemperos,
Pensamos no porvir,
No findável, nessa breve felicidade de encontros surpresas.
Decidimos então ser imediatos, sem antes ou depois,
Só para rirmos desses devaneios.
Meu amigo era meu espelho,
Eu brindando comigo.
Meu eu de outrora me sorrindo,
Cordialmente carinhoso,
Com o seu velho futuro.
Eu brindando meu passado novo.
Tão bom reencontrar meus olhos pueris,
Cá nesse mundo biruta
À gosto do vento.
Eu vivendo duas metades de mim,
Sem sequer a certeza de quem sou,
Mas com a infinita certeza de ser mais de um
E não menos que dois.
Misturando o verso com o reverso
Voando sem deixar de o chão tocar.

Fassura