sábado, 3 de novembro de 2012

Vasto canto


Sempre fora assim: uma versão à meio caminho de mim. Logo eu, que tanto desejava achar-me. Logo eu, que me supunha inteira. Pergunto-me todos os dias onde me deixei perdida.
Mas à meio caminho da desesperança, prefiro ficar aqui. Aqui, aqui sim, neste canto. Escondendo-me do porvir. Preso às memórias reinventadas, que ressurgirão num espelho enganador, com um reflexo, que só pode ser outro e não eu.
Dia desses resolvi sair. Saí assim, por sair, sabe, sem grandes motivos? Para quê um motivo? Basta-me a vontade de ir. Não sei ao certo que pé apontou-me a rua. Ah, para quê saber? Faz diferença que pé me iniciou o caminho estando eu já nele? Estando. Está aí, esse gerúndio, pairando sobre mim. Essa inevitável forma de alongar o que não se quer perder. O gerúndio equivale à espera, ou à esperança, aquele bichinho verde que se camufla de folha. Bichinho engana/dor. Agora deixando o verde e voltando à rua. Eu desesperei  _ verbinho desavergonhado esse, que sempre me acompanha _  vi um mundo ao contrário do canto: vasto e mudo de tantas sinfonias. Era um corre-corre  em desatino, uma lucidez insana, que  só cabia num quadro de Picasso. A forma estava lá toda retorcida, pedaços mal encaixados, brincando de geometria.
 O sufoco fez-me querer a volta, o canto apertado das coisas não partidas, no qual só minha “inlucidez “ cabia, e cabia de tal forma, que me era normal. Bonita _ eu diria. Eu parecia um retrato impressionista, singelo, com um movimento enquadrado. Uma alucinação bonita. Contudo o mundo me vendo, não me compreendia. Rotulavam-me à gosto de sua geometria, questionando as torrentes de pinceladas, que me faziam tão eu, tão nada, tão tudo.  Por fim voltei para o canto. Meu canto sem partida. Véspera do meu desassossego, em que aprecio estar perdida.

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